RATO PRETO
Noite escura. Pátio da
Divisão Marítima da Estrada de Ferro Central do Brasil.
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O
guarda fazia sua ronda por entre os vagões carregados. Tudo parecia tranqüilo.
O silêncio só era quebrado pelos apitos distantes dos rebocadores manobrando no
porto.
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Ao
passar de uma fileira para outra, o guarda teve a sua atenção despertada para
uma sombra que se esgueirava por entre os carros. A princípio pensou tratar-se
de uma criança que procurava abrigo para passar a noite, devido a baixa
estatura da sombra que se movia em silêncio. Contornando a fileira de vagões,
com passadas rápidas e silenciosas, o guarda cortou caminho e se viu frente a
frente, não com uma criança, e sim com um negro de no máximo um metro e meio de
altura, feio como a "necessidade", com um saco às costas e um boné
que lhe chegava quase aos olhos. Olhos que brilhavam como duas brasas na
escuridão que os envolvia.
-
Parado! - gritou o guarda.
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A figura realmente ficou parada, com os olhos de brasa fixos no guarda.
Sem mover um músculo e sem pestanejar.
- O que faz você aqui a esta
hora da madrugada? - indagou o guarda.
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Como
resposta, obteve silêncio. E aquele olhar fixo, preso naquele rosto que parecia
de granito, talhado por um artista não muito habilidoso.
- Eu quero saber o quê o
senhor quer aqui a esta hora, e com esse saco aí nas costas? - tornou o guarda
a indagar.
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O
negro resolveu falar:
- Acho bom o senhor seguir
seu caminho, e esquecer que me viu.
- Como esquecer que lhe vi?
- disse o guarda - o senhor está preso! E vai me acompanhar até o posto.
- Já lhe dei um aviso. Não
costumo dar o segundo. - disse o negro.
- Pois vou lhe levar nem que
para isso eu tenha que lhe enfiar a mão!
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Dizendo
isso, o guarda avançou dois passos em direção ao negro, que imediatamente
largou o saco que carregava, e deu um passo para o lado.
- Pelo visto, o senhor quer
encrenca!
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O guarda
falou, e partiu para cima do negro, que se esquivou, ficando mais uma vez
estático, com aquele olhar que já provocava arrepios na espinha do guarda.
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- Pois agora vou lhe prender
debaixo de muita porrada, que é para o senhor aprender com quem está lidando. -
bradou o guarda já irritado com a atitude do negro.
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A
resposta veio em seguida na forma de uma pernada do negro, que pegando a canela
direita do guarda, o desequilibrou, fazendo com que ele batesse com a cabeça no
vagão. Pego de surpresa, o guarda ficou meio zonzo. Do que se aproveitou o
vagabundo para lhe pular em cima. E prendendo as pernas em torno da cintura do
guarda, rosnando, com o braço esquerdo de encontro ao pomo de adão. E ainda não
satisfeito, passou a arranhar o rosto do guarda com as unhas da mão direita. A
cena se vista de longe, pareceria que um homem carregava uma criança à moda dos
índios, ou seja, frente a frente, com a criança enganchada na cintura, e o
homem a abraçando.
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O
guarda quase sem poder respirar, devido a pressão das pernas em torno de si,
meio tonto da pancada na cabeça, com a perna doendo depois de ter recebido o
rabo-de-arráia, quase sufocado com a pressão no seu pomo de adão, e sentindo o
sangue escorrer do rosto, pois o negro tinha unhas afiadas como navalha,
enlouqueceu.
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Partiu
para o tudo ou nada. Pensou:
- Vou arrebentar as costas
desse crioulo de encontro a quina do vagão.
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Pensou
e agiu, indo de encontro ao vagão com o negro no colo. Mas a manobra foi
percebida, e no exato momento do choque, o negro soltou o guarda, escorregando
para o chão, e passando por baixo das pernas do mesmo, que se arrebentou
sozinho de encontro ao trem. Mais zonzo ainda e com o rosto ensangüentado e
latejando, o guarda não teve outra alternativa se não a de ir correndo buscar
refôrço no posto, onde entrou esbaforido:
- Vamos lá no pátio, que tem
um neguinho roubando a carga. Me dá uma ferramenta que vou matá-lo. Olha o que o desgraçado me fêz.
Vamos logo!
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Mas
os outros guardas não pareciam dispostos a sair de onde estavam. O chefe do
plantão se adiantou dizendo:
- Calma Zeca. Fique calmo.
Sente aqui e me conte o que aconteceu.
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Muito
a contragosto, o guarda Zeca foi obrigado a contar o que havia acontecido no
pátio de manobras. Depois do relato, o chefe, colocando a mão no ombro do Zeca,
sentenciou:
- É... Sem dúvida você teve
o prazer de conhecer o "Rato-Preto". Você é novo aqui, e deveriam ter
te avisado a respeito dele. Você teve muita sorte, pois não se sai vivo de uma
querela com esse homem. O bicho é violento, e aqui ninguém se mete com ele. E
depois, pra quê esquentar a cabeça. Ele rouba pouco, uma coisinha de nada, só
um pouco disso ou daquilo. Mais vale ficar vivo. Isso daqui não é nosso mesmo.
Vai Zeca. O Tião te acompanha ao hospital. E esquece esse cara que é melhor
para tua saúde.
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Dois
meses depois desse episódio, Zeca, trabalhando no turno do dia, justamente para
não se encontrar com o Rato-Preto, ao fazer sua ronda por entre os vagões
estacionados no pátio de manobras, com quem ele se depara? Rato-Preto em
pessoa. Com o seu boné enterrado na cabeça e o inseparável saco de lona no
ombro.
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Zeca
ainda pensou em correr, mas não dava mais para se esconder. E também o Zeca não
era homem de correr de homem. O jeito foi continuar andando na direção do
crioulo. Ao chegar perto do baixinho, que como no encontro anterior, adotava a
mesma postura estática, e o olhar de brasa fixo nos olhos do guarda.
- Bom dia seu Rato-Preto! Eu
gostaria de lhe falar algumas palavras. - disse o guarda Zeca.- Eu lhe devo
desculpas pelo acontecido naquela noite. Mas acontece que não me avisaram para
não bolir com o senhor. Eu era novo aqui. Tenho a mulher doente. Cinco filhos
prá criar. Ainda por cima a sogra mora comigo prá cuidar da patroa. Essa vida
tá difícil. Por favor, vamos esquecer tudo isso, tá certo?
- Olha aqui branquelo.-
falou o negro. - Tu és um cara de sorte. Naquela noite eu esqueci de trazer
minha companheira, o que não aconteceu hoje.
Dizendo isso, o Rato-Preto,
retirou a mão do bolso da calça, trazendo à mostra uma navalha tão brilhante
que quase cegou o guarda Zeca, que imediatamente deu um passo atrás com os
olhos arregalados e o rosto perdendo totalmente a cor.
·
E o
tal Rato-Preto continuou:
- Eu devia lhe cortar uma
orelha prá que você não me esquecesse. Mas hoje não tou a fim de ver sangue.
Mas lhe digo: Não torne a cruzar o meu caminho, certo?
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Dizendo
isso, o malandro, fez uma mesura debochada, e se foi a passos lentos.
China.