Blog destinado a divulgar as atividades da congregação do P.A.U. Entidade sem fins lucrativos, sem ideais e sem rumo. *PIRADOS ANÔNIMOS UNIDOS.
Cotidiano
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Engarrafado
- ...Engarrafou!...Que merda! Essa droga de trânsito tinha de engarrafar logo agora? Mas que bosta! O que pode ter acontecido? Algum babaca fez merda ou enguiçou. Não posso me atrasar... Hoje não. Tudo parado. Agora não dá pra voltar... Se eu não tivesse atendido o telefonema do Augusto, talvez tivesse passado por aqui antes dessa droga engarrafar... Porcaria...
- Tio! Quer bala?
- Não! Ainda bem que o tanque está com três quartos... Se essa droga de marcador não estiver pifado.
- Vai amendoim aí meu tio?
- Não! Cacete! Isso é hora de engarrafamento? Alô! Pronto. Oi! Tudo bem? Estou indo... Tou preso num engarrafamento... Que que eu posso fazer? Não sei... É... Não é minha culpa. Não posso fazer nada... Tá bom... Um beijo. Tinha de acontecer uma porcaria dessas... Só comigo mesmo... Isso não anda!
- Quer chiclete?
- Não! Mas que merda... Só vendem porqueira que dá sede... Um copo d'água agora ia bem... Que calor! Se eu ligar o ar condicionado essa droga de motor vai esquentar mais depressa... Ou será o contrário? Será que vai dar superaquecimento? Não sei... Tenho que perguntar isso ao Chico. Nunca testei esse carro com o ar ligado tanto tempo parado... Melhor não ligar... A temperatura já está acima do normal... Que sede! Como está abafado! Parece que vai chover... Aquelas nuvens ali não me enganam... Vai chover... Só falta o motor superaquecer... Cadê os cigarros? Melhor não fumar... Cigarro contém monóxido de carbono... Os escapamentos também soltam monóxido... E não tem vento... Vou ficar asfixiado aqui dentro do carro... Monóxido dá sono... Onde foi que eu li isso? A pessoa envenenada por monóxido vai ficando lerda, sonolenta, vai apagando. Será que é isso mesmo que acontece? E se me der sono agora e eu apagar? Vou morrer aqui sozinho... Mas que droga! Vinte minutos, e só andei uns quinhentos metros... Porquê não marquei o odômetro? Não prestei atenção, será que ele está funcionando direito? Tôu ficando paranóico... Acho que a temperatura do motor ficou mais alta... Esse carro é novo, não pode esquentar demais assim atoa, e os mostradores estão funcionando corretamente... Acho. Essa rádio só toca porcaria... Vou colocar um cd... Qual? Esse... Raul Seixas... Bom... Melhorou. Elisa!? Não pode ser... Naquele carro azul ali, é Elisa. Droga! A fila dela está andando mais depressa que esta. Será mesmo Elisa? Não dá prá ver direito... O cabelo é da mesma cor, mas não dá prá ver o rosto direito... Não pode ser Elisa... O carro dela não era dessa marca... Talvez ela tenha trocado... Esses idiotas não andam! Preciso ver se é Elisa... Por que foi que nós terminamos? Não lembro. Como pode ser isso? Elisa era tão importante... E eu não lembro porque terminamos. Foi em Angra... Não. Foi na casa da Clô, na Barra... Também não. Não sei... Nós éramos tão amigos, tão cúmplices... Que besteira ficar pensando agora nos motivos da nossa separação... Que coincidência... Foi Elisa que me deu esse cd do Raul... Pô, que saudade da Elisa... Droga! Eu amava Elisa. Que falta ela me faz... Aquela mulher ali não pode ser a Elisa. O jeito do cabelo é diferente... Será que além do carro, ela também mudou de penteado? Ela ia para Curitiba estudar... Estudar o quê mesmo? Sei lá. Ou estou ficando velho e senil, ou o monóxido está afetando minha memória. Quanta coisa que tento lembrar e não consigo... Só pode ser a idade... Começou a ventar... Que bom! Mas não demora cai chuva. E se isso aqui inundar? Não lembro se esse trecho inunda, e só consegui andar mais uns seiscentos metros, a temperatura do motor e o calor aqui dentro já aumentaram. Vou fumar um cigarro... Não agüento mais... Cadê o garoto dos chicletes? Ficou pra trás... Eu podia ter comprado a porcaria do chiclete... Começou a chover... Só falta os limpadores não funcionarem agora... Preciso de um psiquiatra, estou paranóico... Tenho certeza... Sou mais um paranóico solto na cidade... Loucura. Devo estar louco... E o carro azul com a Elisa? Lá está ele, se adiantou mais um pouco, assim não dá prá ver se é ou não a Elisa. Alô! Não, ainda tou no engarrafamento... O quê que você quer que eu faça? Isso aqui não voa... Não sei... Agora estou vendo... Não! Estou vendo a causa do engarrafamento... Foi um corno que entrou na traseira de um ônibus... Já estou quase lá, mais um pouco e me livro, basta passar pelo acidente... Mas que merda! Justo agora chegou um reboque para retirar o tal carro, e o guarda de trânsito interditou de vez o tráfego para que o guindaste manobre. Depois te ligo. Hum!... Ali tem um bar... Vou lá enquanto o trânsito está interditado. Ah! Que bom essa água geladinha, agora melhorou. O carro azul! Ele vai...
- Perdeu! Perdeu! Aí meu tio vai passando o relógio e a carteira se não quiser levar um teco no chifre!
- Puta que o pariu!... O quê que me falta acontecer hoje? Ainda bem que o desgraçado não viu o celular. Sorte que tinha pouco dinheiro e nenhum cartão na carteira. E o relógio era barato. Vou mudar dessa cidade; não dá... Hoje eu devia ter ficado na cama o dia todo. Realmente, devo estar velho. Até ladrão me chama de tio... Que mais vai acontecer comigo nesse bendito dia? Finalmente tiraram o carro batido... Agora preciso alcançar o carro azul... Já estamos andando... Ainda bem. A agenda! Porque não pensei nisso antes! O telefone da Elisa está na agenda... Deixa eu ver... Aqui está... Desligado ou fora de área... É isso. Se eu não achar um psiquiatra hoje, vou acabar me matando... Meus nervos vão arrebentar a qualquer instante... Essa chuvinha até que está legal, refrescou... A temperatura do motor baixou... Tenho de encontrar Elisa... Será que ela ainda mora no mesmo apartamento? E se ela estiver casada? E se ela tiver mudado?... A garota daquele outdoor tem o sorriso da Elisa... Eu só queria lembrar porque nós nos separamos...
------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Emergência
Duas horas de uma madrugada quente. Emergência de um pronto-socorro agitado. Doze horas de um plantão que se transforma em treze, quatorze, quinze ou mais. Um repórter desconhecido, um foca, do seu canto vai anotando os casos que mais possam interessar seu editor. As salas repletas de uma gente de olhar desesperado; de lágrimas que rolam silenciosamente em rostos com expressão de dor. O policial de plantão anota com ar de enfado os casos que terão de ser levado ao conhecimento das autoridades, para registro, que darão início a inquéritos nem sempre concluídos. Mais uma sirene se aproxima espalhando sua dor no ar parado da madrugada que parece não ter fim...
-Doutor! Mais um caso na emergência...
-Estou indo! Do que se trata?
-Tiro. A PM que trouxe...
-Qual a região atingida?
-Tórax.
-Chama o Cláudio depressa...
-Ele está operando na sala dois.
-Por favor, se afastem...
-Não podemos sair daqui doutor, o bicho é perigoso.
-Assim não dá para trabalhar... Vocês têm de esperar lá fora enquanto examino o paciente. Isso aqui tá feio. Qual o calibre da arma?
-Deve ter sido de pistola. Mas cuidado doutor, já disse que ele é perigoso.
-Enfermeira! Cadê o Cláudio?
-Ainda operando. Tá chegando uma ambulância com um atropelado.
-Chama o Rodolfo!
-O Doutor Rodolfo está operando na sala um.
-Mas Deus do Céu! Eu preciso de um trauma-ortopedista e de um cirurgião vascular aqui. Esse homem está mal! Não dá para fazer tudo sozinho!
-Esquenta não Doutor, se morrer, morreu. Isso não vale nada mesmo...
-Por favor, Sargento! Espere lá fora! Esse homem não tem condições de se movimentar. O senhor acha que ele vai fugir?
-Nunca se sabe. Bandido tem sete vidas.
-Mais sangue enfermeira! Não consigo estancar a hemorragia.
-A pressão arterial está caindo depressa...
-Doutor. O paciente que está de repouso na sala três já pode ir embora?
-Que paciente, minha filha!?
-O do coração...
-Meça novamente a pressão. Se estiver normal libere.
-E a criança que caiu da escada?
-Preciso ver o Raio-X.
-Cláudio! Ainda bem, assuma aqui. Vou examinar o que está chegando...
-Dê espaço para o Doutor...
-O quê foi isso?
-Atropelado por um ônibus. Parece que a perna direita tá mal...
-Deixa eu examinar. Cirurgia. Rápido... Sala dois.
-André! Esse não resistiu!
-Aí Sargento! Agora ele só vai para o necrotério. O senhor já pode liberar o es paço.
-Doutor André; essa criança engoliu uma moeda.
-Peça para o Cláudio fazer uma endoscopia. Cadê a Doutora Juliana?
-Na enfermaria...
-Doutor André, telefone.
-Agora não posso atender! Minha senhora, o que aconteceu com ele?
-Não sei... Acordou hoje cedo sentindo muita dor de cabeça e com febre. Agora está todo mole.
-Qual a idade dele?
-Quatro anos e dois meses.
-Não se preocupe... A doutora Juliana vai examiná-lo já, já.
-André, preciso que você veja esta ultra.
-O que foi que aconteceu?
-Ela diz que caiu da escada... Mas acho que é mentira. Parece que levou uma surra do marido. Há hematomas na região lombar, nos braços, nas pernas e equimoses no rosto e no pescoço.
-De quantos meses é gravidez?
-Cinco ou seis.
-Quando aconteceu o “acidente”?
-Ontem.
-É melhor chamar a Líliam...
-Hoje ela não veio...
-Mas que diabos! Eu tenho de resolver tudo sozinho? Interne até que apareça um obstetra.
-Não tem vaga...
-Fica difícil!
-Mando embora?
-De jeito nenhum! Verifique a anaminésia de todos os pacientes internados, e veja quem pode receber alta para poder abrir uma vaga, certo?
-Ok!
-Doutor André, estão lhe chamando no CTI.
-Negativo! Meu plantão terminou há mais de duas horas... Estou exausto! Chame o Cláudio, é a vez dele assumir o plantão. Até segunda...
-Doutor Cláudio! Doutor Cláudio! Chamado no CTI!
-Cadê o André?
-Já foi embora.
-Mande este para o raio-x...
-Não dá... O aparelho acaba de pifar...
-Assim não dá para trabalhar! Enfermeira arranje uma ambulância para transferir o paciente!
-A única disponível está na rua...
-Isto aqui é uma bagunça!
-Chegando dois baleados!
-Mande para a sala Um.
-O Doutor Rodolfo continua operando na sala Um...
Salas, pacientes, médicos, sirenes, luzes, dores, lágrimas, correrias, macas, cadeiras de rodas, gemidos no início de mais uma manhã que recomeça com baleados, atropelados, estropiados, desesperançados...
-Doutor Cláudio! Doutor Cláudio...
PS: O doutor André é o neto do Índio.
------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Meu nome é Jaime
Meu nome é Bond... James Bond. Esta frase é famosa e quase se aplica a mim. Mas na verdade, meu nome é Jaime... Jaime Honorato dos Santos, mais conhecido como Sombra. Não sou espião... Sou detetive particular nessa mui famosa Cidade do Rio de Janeiro, que dizem, maravilhosa. Não sou tão bonito e charmoso quanto o espião de sua Majestade, mas dá para quebrar o galho com as vadias que encontro pelas quebradas da vida. Tenho 1,85 de altura, 96 de peso, sou moreno, pratico boxe. Uso o boxe como terapia, não levo muito a sério... Fumo dois ou três maços de cigarros vagabundos por dia, e bebo qualquer coisa que contenha álcool. Na rua sou confundido com qualquer um. Sou do tipo comum, o que na minha profissão é uma vantagem... Passo despercebido. Como todo detetive que se preze, também tenho um escritório... se é que se pode chamar esse pardieiro de escritório. O meu pardieiro... Digo, escritório, onde também moro e abato as incautas, fica na rua Riachuelo, próximo à Lapa, sempre suja e mal cheirosa, em um prédio velho do início do século, não perguntem que século. Para se chegar ao meu, digamos, local de trabalho e moradia, é preciso subir quatro lances de uma escada estreita e escura, rezando para não topar com nenhum dos vagabundos que infestam o lugar, pois nunca se sabe o que se passa na cabeça de um desses drogados que nada tem a perder. Devido a essa má localização tenho poucos clientes.
A maioria dos que me procuram são os paranóicos, bêbedos, drogados, prostitutas, cornos, e todo tipo de sociopatas e desvalidos de uma grande cidade. Em resumo: o rebotalho humano esquecido pela sociedade.
Naquela tarde de um inverno atípico, pois acreditem, fazia um frio de lascar nessa cidade conhecida pelo seu calor, eu estava mais para baixo do que rabo de cachorro quando é chutado pelo dono. Calado, pensando na vida. Deitado no sofá encardido, fumando, com o escritório na penumbra. Apenas um abajur horroroso espalhava um pouco de luz amarelada e mortiça naquele ambiente enfumaçado e bolorento. Se eu fosse do tipo romântico, diria que o ambiente tinha um certo ar de filme Noir, só faltava a trilha sonora de um Sax manhoso tocando um Blue antigo.
Fui tirado de meus devaneios quando a porta se abriu deixando entrar o ar frio do corredor. Levei instintivamente a mão até o coldre onde esperava encontrar minha PT 380, mas ele estava vazio. Só então lembrei que a porcaria da pistola estava na gaveta, longe do meu alcance. Se for alguém a fim de me apagar, eu já era, pois uma silhueta já se desenhava no umbral da porta. A contra luz da fria claridade da lâmpada de mercúrio do corredor, não me deixava ver as feições de quem entrava, mas era uma mulher. Bom... - pensei. Pelo menos vou morrer pelas mãos de uma dama, o que já é um certo consolo. Quando ela fechou a porta atrás de si, deixando de me ofuscar com a luz de fora, pude ver que se tratava de uma bela mulher... Bela é pouco. Definitivamente ela era espetacular. Saltei do sofá, tentando por em ordem o meu amarfanhado traje de batalha, enquanto ela me dava um boa tarde com a voz rouca e sex das divas do cinema de Capra.
- Boa tarde! – respondi num fio de voz que pretendi ser natural.
- Estou procurando o Sombra...
- Já encontrou! Meu nome é Jaime, o Sombra.
- Foi o Geraldinho que mandou te procurar...
- Ah! Geraldinho...
Geraldinho era um tipo mais do que esquisito... Efeminado, proxeneta, dono de um bordel na rua do Acre, mau caráter. Embora tivesse aquele jeito feminino, com voz de falsete e usando sempre trajes e maquiagem de mulher, Geraldinho era perigoso. Um cafajeste de marca maior... Um pilantra sacana, que além de gostar de homem, gostava mais ainda de sangue. Mais de uma dezena de prostitutas trazia a sua marca estampada no rosto feita à navalha. E tantos outros michês, tinham sentido o frio de sua lâmina nas entranhas.
- Preciso de seus serviços... – tornou a falar o monumento.
- Primeiro me diga como você conheceu o Geraldinho, aquele tipo não parece combinar contigo...
- Isso é uma longa história... Não vem ao caso...
- Eu gosto de longas histórias... Não tenho pressa, por acaso tenho o dia inteiramente livre, posso ficar lhe ouvindo o quanto for necessário...
- Já lhe disse... Não vem ao caso... Preciso de você, e pago bem...
- Parece que você é do tipo apressada... Nem ao menos sei seu nome...
- Sueli. Para você, apenas Sueli...
- Ok, Sueli?! Digamos que eu me interesse por seu caso... Do que se trata?
- Quero que você mate meu marido...
- Só isso? Me dê o motivo para tão radical solução...
- Não importa.
- Como não importa! Você entra aqui, sem mais nem menos, com a maior naturalidade diz que quer ver seu marido morto, e o motivo não importa?
- Estou disposta a pagar bem. O motivo só interessa a mim...
- Me desculpe, mas você veio ao lugar errado.
PS: É o mesmo caso do índio. Tentem convencer o Sombra a prosseguir com o relato.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Assinar:
Postagens (Atom)