Historinhas prá boi dormir

Cada um conta a sua.

PEDRADA


                 Éramos jovens. E como todos os jovens, curiosos. Na nossa rua havia um velho que diziam ser Pai de Santo. Dava consultas, jogava búzios, essas coisas.
                Uma tarde, eu e meus amigos de aventuras resolvemos entrar na casa do velho, que naquele momento atendia algumas pessoas.
                Nos sentamos muito sérios, sem olharmos uns para os outros para não rir. Jovens quando nervosos ou diante de algo desconhecido, não sei por que desatam a rir.
                Estávamos ali bem quietos esperando a nossa vez, quando da rua veio um alarido, uma falação, um disse não disse infernal. Era mais um desentendimento entre os moleques da rua que jogavam futebol. A discussão aumentou, e a briga aconteceu. Corre prá lá, corre prá cá, no meio do tumulto jogaram uma pedra. Esta, entrou pela janela e acertou o negro velho, que sentado, dava consulta a uma senhora gorda.
                Ao sentir-se atingido, o velho levou a mão à cabeça e exclamou:
- Êta...êta merda, qual foi o filho da puta que jogou esta "preda"?
                Não preciso dizer o que aconteceu depois... Preciso?

Ignorância

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VIRAÇÃO

A noite estava clara. Com o céu rendilhado de estrelas e uma lua cheia que parecia mais perto da terra do que o normal.

O velho, depois de verificar o estado geral da charrete e os arreios do cavalo, deu a ordem para que todos subissem a bordo. Primeiro a esposa, depois a tia, e por último as três filhas. Todos assentados, lá se foram a caminho da casa de uns parentes que festejavam não se sabia bem o quê.

A estrada de terra batida estava clara como se o dia estivesse amanhecendo, não oferecia nenhum perigo. Deveriam percorrer cerca de seis quilômetros entre sua casa e a dos parentes, tendo que atravessar um rio a meio caminho.

Enquanto o cavalo trotava, e as meninas papagueavam entre si, o velho com uma vista na estrada e a outra no céu, opinou que o tempo iria se modificar, ou seja, em seu linguajar: O tempo iria "virar". As mulheres não concordaram, e disseram a um só tempo que nunca tinham visto noite mais clara e bonita do que aquela.

Após saírem da estrada principal, enveredando por um caminho mais estreito e chegando perto da ponte que iriam atravessar, o velho resmungou mais para si do que para os que o acompanhavam, que o vento tinha virado. O vento que soprava do norte, mudou para sudoeste, o que demonstrava a aproximação de uma frente fria vinda do sul. O cavalo continuava em seu trote macio, ao que parecia não se importando com o peso que arrastava atrás de si. Ao cruzarem a ponte sobre o rio cheio, que quase tocava as bordas devido à lua cheia, o cavalo empacou. O velho instou para que o animal prosseguisse, mas nada conseguiu.

- Mas que diacho há com esse bicho? - resmungou descendo da charrete para verificar o que se passava com o animal.

Nisso, o vento acelerou, uma rajada forte arrancou o chapéu do velho e fez com que o cavalo se assustasse e começasse a corcovear ameaçando sair em disparada. Não fosse a mão de aço do velho e sua força descomunal, era o que teria acontecido. O que seria um grande perigo para as mulheres que se encontravam ainda sentadas na charrete. Entretanto, por mais fôrça que o velho aplicasse no cabresto, o animal não parava de corcovear, empinar e escoicear o ar.

- Desce gente! O bicho endoidou!

O aviso chegou tarde, pois a barrigueira que sustinha o equilíbrio da charrete e a prendia ao lombo do animal, não agüentou o tranco e arrebentou soltando a charrete, que com o desequilíbrio do peso, virou para trás jogando suas ocupantes no chão. Foi um embolar de pernas com cabeça, saias esvoaçando, chapéus e sandálias perdidas. Com os risos nervosos e os gritos assustados, o velho ficou desnorteado, sem saber se segurava o cavalo, a charrete ou se socorria a esposa, a tia ou uma das filhas.

Mas o vento aumentava. No céu corriam nuvens negras, e o cavalo não se aquietava. A lua foi rapidamente encoberta, a noite antes tão clara, agora era escura como "breu" no dizer do povo local. A poeira levantada pelo vento tornava as coisas ainda piores. O velho perdeu a calma e desancou a blasfemar:

- Sai diacho! Arreda satanás! Será o cão? Não é possível! "Quéto", ô...ô, quéto. Fica quéto danado...ô... quéto.

Mas nada acalmava o cavalo assustado. Sem alternativa, já com as mãos e os braços doendo, o velho largou o animal que saiu em disparada pelo caminho agora escuro.

Sua tia, que já se recuperara do tombo e do susto, vendo uma massa escura no meio do caminho, se abaixou dizendo:

- Ah! Aqui está o seu chapéu!

E enfiou as mãos no que evidentemente não era o chapéu do velho, mas uma massa meio molenga e ainda morna saída provavelmente dos intestinos nervosos do animal enlouquecido.
Cacau

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O RESULTADO

Era um mulato alto, magro, de seus vinte e poucos anos. Quando andava tinha um gingado meio malandro, meio maroto. Usava os cabelos curtos, nos lábios um meio sorriso discreto, o olhar um pouco apertado. Tinha boa aparência.

Se espreguiçou na cadeira, consultou o relógio na parede e achou que já estava na hora. Se levantou e se encaminhou para o espelho onde se penteou com uma escova para ajeitar o cabelo quase carapinha. Conferiu o resultado colocando o chapéu de abas largas, ora um pouco caído para a direita ora um pouco para a esquerda. Sungou a calça e apertou mais o cinto. Conferiu mais uma vez a aparência e achou que estava bom.

Resolveu que já era hora. Se encaminhou para a porta abrindo-a e sendo atingido pela claridade do sol forte, o que o fez apertar ainda mais os olhos. O calor também o atingiu em cheio. Imediatamente começou a transpirar, não sabia se devido ao sol forte, ou ao nervosismo que o afligia. Foi andando devagar pela sombra da casa até chegar ao portão. Pôs a mão no trinco queimando as pontas dos dedos, praguejou contra o sol que lhe queimava a pele. Saiu na calçada espreitando à esquerda e a direita. A rua estava deserta, parecia que todos se escondiam do sol que já se encaminhava para o poente. Um vento quente levantava a poeira. O mulato abaixou a aba do chapéu para proteger mais os olhos da claridade que o ofuscava. Olhou mais uma vez para os dois lados da rua e resolveu atravessá-la. Foi andando bem devagar, gingando, os braços balançando, o olhar apertado. Na fisionomia a tensão estampada como uma máscara.

Depois de andar cêrca de trinta metros parou. Braços ao longo do corpo, olhar apertado. A ansiedade num crescendo, o coração subindo de ritmo, o sangue acelerando nas veias exaltadas. Hesitou entre prosseguir e ficar parado observando de longe o muro manchado, sujo, onde estampado estava o resultado da sua aflição. Balançou o corpo meio indeciso e continuou a caminhada rumo ao destino.

Se aproximou da parede com o olhar estático. Do bolso retirou a pule e conferiu a amarga realidade exclamando:

- Merda!

Não dera a vaca como sonhara. O resultado estava bem claro... Dera urso na cabeça.
Jaime

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O CÃO E O CACHORRO


Noite de céu estrelado. Um vento frio soprando de sueste. Estávamos na quermesse da paróquia de São Pedro.

Muita gente pra lá e pra cá. Parecia que a festa seria tranqüila; parecia...

Meu tio surgiu com seu terno branco, chapéu panamá e gravata torta. Conhecendo meu tio como conhecia, eu já imaginava quantas dozes de conhaque teria ele ingerido.

Não falei da viola americana que o acompanhava nos últimos tempos. Eis o motivo do sururu: a viola.

Formou-se a roda de seresteiros. Meu tio começou a dedilhar as cordas:

- Tá desafinada. - comentou com um dos parceiros.

- Do jeito que esse cachorro tá "bêbado", não vai conseguir afinar essa porcaria. - era minha tia falando, já fula da vida por seu marido chegar na quermesse meio embriagado.

O cachorro no caso era meu tio, mas um cachorro de verdade, ou seja, um quadrúpede da raça canina como dizia meu avô, se chegou para o lado dos meus tios e ficou farejando por entre as pernas dos dois.

Meu tio não gostou da intervenção da mulher, e muito menos de ser igualado ao farejador que já o enervava.

- Se "aquete" mulher! Já tou nervoso, essa droga não afina de jeito nenhum! Daqui a pouco jogo essa porcaria na fogueira! - foi a réplica do tio.

Minha tia provocou:

- Joga! Joga que eu quero ver!

Aí sim, começou o tumulto. Meu tio jogou a viola na fogueira, que ao cair levantou fagulhas, e estas atingiram o cão. Não meu tio, mas o de quatro patas. Com o susto, o animal ganiu e pulou, esbarrando na perna do tio, que no reflexo tentou chutar o bicho. Mas o chute pegou na canela de minha tia, que soltou um berro e começou a xingar Deus e todo mundo:

- Ah! Filho da puta! Desgraçado! Vem prá Igreja fazer merda! Desgraçado sem mãe! Miserável!

Meu pai correu para a fogueira e conseguiu retirar de lá a viola já meio chamuscada. Enquanto isso meu avô tentava serenar minha tia:

- Quê isso comadre? Essa gente vai pensar que nossa família não tem educação! Não vê que o "home" tá bêbado? Deixa disso!

- Vamos embora! - falou minha avó. - Esse povo só faz vergonha! Onde se viu! Esse Xingamento aqui na porta da igreja...

Enquanto isso, meu pai entregava a viola de volta a meu tio, que com toda calma começou a tocar um de seus inúmeros chorinhos. E virando para mim, comentou:

- Êta violinha boa! Só precisava de um calorzinho.
X
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O BAILE


Tudo começou com o amável convite para que minha família comparecesse a um baile.

O tempo estava ótimo. A noite de lua cheia prometia. Prome-tia...

Estavam todos animados com a possibilidade dos momentos de divertimentos e alegria proporcionados pelo tal baile. Naquelas bandas do interior, era rara a possibilidade de diversão. Daí a ansiedade e o esmero com que todos se dirigiam para o sítio do vizinho onde se daria o arrasta-pé.

Pelo caminho meu avô ia passando as recomendações sobre o comportamento e as atitudes que todos deveriam adotar. Já dentro do sítio, meu avô fez notar aos presentes o poço que ficava bem ao lado do caminho. O alerta era válido, pois o poço tinha por cobertura apenas uma folha de zinco, o que representava um perigo real de queda dentro do mesmo.

O sanfoneiro dedilhava o teclado do seu oito baixos acompanhado do violeiro apelidado de "Alfredo Baratinha", um sujeito de estatura baixa e portador de um resfriado crônico. A iluminação precária proporcionada pelos candeeiros não clareava quase nada, mas em compensação atraía toda sorte de insetos noturnos.

O calor dentro da casa de sapé e adobe era incômodo, e os dançarinos suavam, mas não paravam de bailar.

O baile seguia animado regado pelas generosas doses de aguardente do alambique que ficava ali mesmo no fundo do quintal. Lá pelas tantas, um engraçadinho mais animado do que os outros, e que deveria ter sérios distúrbios intestinais, ao fazer uma pirueta mais arriscada, não conseguiu evitar a dispersão de seus gases, o que provocou protestos gerais. O dono da casa subiu em um banquinho e começou a espinafrar os mau educados presentes, o que provocou um falatório e um disse-não-disse infernal dentro da pequena sala. Para culminar com a balbúrdia generalizada, um desenfeliz apagou o candeeiro e um outro meteu o pé no banquinho usado pelo dono da casa, fazendo com que este fosse ao chão.

O anfitrião se levantou rápido e correu em direção da cozinha, voltando de lá com uma foice na mão dizendo que iria matar o cabra que o derrubara. O corre-corre foi imediato. Saiu gente por portas e janelas, sem prestar atenção se as mesmas estavam abertas ou fechadas. Nisso ouviu-se o barulho do zinco do tal poço. Meu avô que se protegera atrás de uma jaqueira quando do estouro da boiada, quero dizer, do corre-corre, exclamou:

- Pronto! Caiu um corno no poço. Eu não disse?

Corremos na direção do dito cujo, e lá chegando constatamos que o "felizardo" havia sido o violeiro.



Todos se acercaram do poço na natural curiosidade de saber quem levara a pior. Uma alma mais caridosa trouxe uma lamparina para clarear o local. Dentro do poço, com água até a cintura, o Alfredo Baratinha reclamava:

- Logo eu! Um homem resfriado!
Gordo

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CARAMBA

Eu e meu avô estávamos conversando no portão de sua casa, quando tivemos a nossa atenção desviada para o chiar de pneus e o estilhaçar de vidros após uma pancada surda.

- Matou o homem sem necessidade! - exclamou meu avô.

Era mais um atropelamento em nossa movimentada rua que as autoridades apelidaram de estrada. Estendido no asfalto, José Genoíno, apelidado de "Caramba", embriagado como de hábito reclamava:

- O senhor quase me matou, e eu nem vi!

"Caramba", que era catador de caranguejos, trazia consigo os ditos cujos em um saco de aniagem. Com o choque, o saco lhe escapou da mão e abriu-se, no que os crustáceos aproveitaram para correr em todas as direções.

O trânsito parou. A molecada apareceu de todos os cantos. Meu avô esbravejava com o motorista do velho DKW, que apalermado não sabia se dava atenção a meu avô ou socorria o homem estendido à frente de seu carro. Os mais impacientes começaram a fazer um buzinaço infernal. A garotada corria para todos os cantos atrás dos caranguejos esbarrando nos curiosos, e se metendo por entre os carros parados. O caos se instalou na rua, ou "estrada". Grupos se formaram: Uns defendendo o motorista, pois a vítima se encontrava visivelmente embriagada. Outros ficavam a favor do atropelado, pois o DKW estava com os faróis apagados e já começava a escurecer, com aquele lusco-fusco que antecede a noite. O trânsito não podia fluir com aquela molecada no meio da rua correndo entre os carros e entrando por baixo dos veículos na busca aos caranguejos que se enfiavam em todos os cantos.

Depois de muito bate boca e corre-corre, com os ouvidos zunindo de tanto barulho, a já agora multidão; não uma multidão, mas uma multidãozinha, deu por falta do atropelado que ninguém lembrou de socorrer.

- Que fim levou o "cabôco" que tava aqui no chão? - gritou meu avô.

O cabôco, como meu avô falava no seu linguajar interiorano, estava no bar em frente, tomando mais uma para se refazer do susto.
Uno

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Libertem minha alma no meio da floresta.


Meu nome é Guaicuru Umburaê, e estou tentando escrever, com a ajuda do meu neto, a história de minha luta. Sim, há um tempo de luta, e um tempo de paz. Agora vivo um tempo de paz, cercado de lembranças e recordações do que vivi... Do que passei.

Minha luta começou longe... Muito longe no tempo e no espaço. Naquele tempo eu era livre, corria nu pela floresta. Caçava, pescava e mergulhava num rio de águas claras. Bons tempos aqueles...

Hoje vivo na cidade entre quatro paredes, encerrado atrás de grades, limitado por um muro alto que cerca o jardim. Ainda que limitado, consigo plantar minhas ervas e assar minha carne no pequeno terreno que me cerca. Não me queixo; contudo, às vezes me pego sonhando de olhos abertos, relembrando a época de liberdade da minha juventude, quando eu era irmão da natureza, filho do vento e amigo do sol. Lembro principalmente das aventuras com o meu amigo Tuim, que era mais corajoso do que eu, e mais valente do que muito guerreiro já adulto. Tuim era forte, muito forte para um garoto de sua idade. Por diversas vezes tentamos descobrir se existia outro povo que não o nosso vivendo na floresta que nos rodeava. Em nossas expedições andamos muito, caminhava-mos por dias seguidos mata adentro, ora em direção do poente, outras vezes em direção do nascente, mas não encontramos ninguém. Apenas uma vez vimos, ou pensamos ter visto do outro lado do rio, os vultos de seres humanos. Mas o rio era largo, e a mata densa daquele lado, o que nos deixou na incerteza se realmente vimos ou não alguém na outra margem do rio.

Quando atingi a puberdade, passei pelo ritual que todos os meninos temiam. Era a hora de me tornar um guerreiro. Naquele dia, o meu pai me acordou bem cedo, ainda com o céu estrelado, e fomos nos juntar aos outros garotos e guerreiros que nos esperavam junto do pajé para irmos ao local da cerimonia, floresta adentro.

Chegando ao local da cerimonia, o pajé começou a entoar o seu canto mágico para afastar os maus-espíritos e obter as boas graças dos guerreiros que habitam o mundo dos espíritos. Fumando o seu cachimbo de ervas aromáticas, ele ia nos defumando, sem parar com sua ladainha monótona e ritmada.

Enfim chegou a temida hora. Tinha-mos de subir em um Ipê enorme e derrubar com as mãos nuas uma enorme casa de ferozes marimbondos de fogo. Por tamanho, fui o terceiro a subir, quando os marimbondos já estavam mais que enlouquecidos. Os insetos loucos por terem sido desalojados de sua casa voavam em todas as direções, zumbindo e ferroando com toda a sua raiva e loucura a quem se aproximasse. Devo ter sido ferroado mais de trinta vezes. Não suportando mais o suplício, me deixei cair ao chão, tendo o corpo sido imediatamente friccionado com um líquido viscoso preparado de antemão pelo pajé.

Fiquei três dias deitado na rede, com febre e suores intensos, e o corpo cheio de calombos doloridos. Todos os dias minha mãe untava todo o meu corpo com uma pasta mal cheirosa que me causava náuseas. Por fim, a febre cedeu e pude sair da oca para sentir novamente o vento no rosto, e o sol na pele. A primeira coisa que fiz, foi nadar na curva do rio, que era o meu local preferido.

O sacrifício valeu a pena, pois agora eu já era considerado um guerreiro, podendo caçar e pescar com os adultos. Podia também participar de excursões pela floresta em busca de ervas e plantas para o pajé. Essas explorações pela floresta era o que mais me interessava, pois não me saía do pensamento que deveria haver outros povos em algum lugar da mata.

- Vovô! Vovô, o senhor está dormindo?

- Não... Estava pensando...

- Pensando em quê?

- Num tempo distante que você não conheceu... Estava pensando no lugar onde nasci. Um dia quero voltar lá com você.

- Vovô, aquele lugar não existe mais. Ficou só na sua lembrança...

- Não é possível que aquilo tudo tenha acabado. A floresta era muito grande.

- Eu sei. Mas a cobiça também é grande. A floresta foi transformada em pasto. O rio foi represado para gerar energia. O lugar onde ficava sua tribo foi inundado, agora é um lago.

- Não acredito em você! Você não quer me levar de volta à minha terra! Eu quero morrer onde nasci, quero que minha alma vagueie livre pela floresta. Não quero ser enterrado aqui, entre os muros do cemitério. Já basta eu viver entre os muros desta casa. Se eu for enterrado no cemitério, minha alma ficará presa, eu não quero isso. Pelo menos depois de morto, quero ser livre novamente... Quero voar ao encontro dos meus ancestrais. Você não pode me impedir... Eu quero voltar pra lá antes de morrer!

- Mas porque o senhor está falando tanto em morte hoje?

- Porque a minha hora está chegando... Eu sinto isso...

- Deixe de bobagens vô. Olhe, eu tenho um presente para o senhor...

- Você já me deu um grande presente ao se formar médico...

- A Lúcia fez a ultra ontem, ela vai lhe dar um bisneto! Não é legal?

- Um bisneto? Tem certeza?

- Claro! Isso não é bom? Não é um grande presente?

- Um bisneto... Claro... Quando ele vai nascer?

- Dentro de sete meses...

- Será que eu chego até lá para conhecê-lo?

- Mas é claro que sim! Deixe de bobagens! Eu quero que o senhor o ensine a amar a natureza, quero que lhe mostre como se faz uma fogueira, como se pesca, como se trata de um animal ferido...

- Não viverei o bastante para isso...

- Viverá sim! Por mim e por ele...

- Você acha que vou viver para sempre? Acha que esse velho corpo ainda possui energia suficiente para esperar um menino nascer, e crescer até a idade de se tornar um guerreiro?

- O médico aqui sou eu, e sei que o senhor tem uma saúde de ferro. O mais provável é que o senhor me enterre...

- Não diga isso! É contra a lei da natureza...

- Mas o senhor enterrou o meu pai e a minha mãe...

- Isso foi por culpa dessa vida de cidade, um acidente. Não foi culpa da natureza...

- Tá bom... Eu tenho de ir ao hospital, depois pegar a Lúcia no escritório. Me espere pronto para irmos ao sítio...

- Não... Vá você descansar em paz com a Lúcia...

- Mas o senhor gosta tanto de lá...

- Gosto, mas estou cansado... Deixe-me aqui com minhas recordações... Além disso, tem o Marquinhos, ele me faz companhia, e eu prometi que ensinava ele a fazer um passarinho assado na fogueira...

- Mas vovô! Eu não gosto que o senhor brinque com fogo. O senhor ainda acaba botando fogo na casa...

- Eu não sou criança para brincar com fogo! Eu faço uma fogueirinha de nada para assar carne...

- E o senhor vai ensinar uma criança a mexer com o que não pode? Além do mais é proibido capturar pássaros...

- Mas eu não capturei nenhum pássaro... Eu comprei umas codornas no aviário... Você sabe muito bem que eu jamais faria mal a natureza. Eu lhe ensinei isto! Na floresta nós capturávamos os pássaros para comer. Hoje na cidade os passarinhos são tão poucos que se nós os pegarmos, eles desaparecerão...

- Está certo vovô... Mas cuidado com a fogueirinha. Agora tenho de ir correndo...

- Essa correria de cidade grande foi à causa da morte dos seus pais; vá devagar... Não quero que você se machuque em um acidente...

- Pode deixar que eu tomo cuidado. O senhor sabe que eu dirijo com cautela.

-...Netos! Ele pensa que fiquei gagá... Não acredita mais em mim. Essa é a sina de um velho. Ainda ontem eu vi esse menino nascer; agora ele me trata como se eu é que fosse o menino e ele o adulto. Ainda bem que ele cresceu depressa, quem diria... Noutro dia era um menino franzino; hoje um cirurgião, um médico considerado. Tenho saudade do pai dele... Era um bom guerreiro, um bom filho. Em breve nos encontraremos no mundo dos espíritos...

- Vovô Chico! Onde o senhor está?

- Aqui na varanda!

- Oi vô!

- Já lhe disse mil vezes que meu nome não é Chico! Meu nome é Guaicuru.

- Mas vô, todo mundo te chama de Chico...

- São uns burros, não gosto de apelidos!

- Tá certo vô! Não precisa ficar bravo comigo!

- Não estou bravo com você Marquinhos.

- O senhor não vai fazer a fogueira pra assar o passarinho?

- Já levei uma bronca do André por causa dessa estória de fogueira; ele acha que vou pôr fogo na casa.
Guaicurù

PS: Se alguém conseguir um meio de convencer o índio a continuar escrevendo, agradeço.


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Emergência

Duas horas de uma madrugada quente. Emergência de um pronto-socorro agitado. Doze horas de um plantão que se transforma em treze, quatorze, quinze ou mais. Um repórter desconhecido, um foca, do seu canto vai anotando os casos que mais possam interessar seu editor. As salas repletas de uma gente de olhar desesperado; de lágrimas que rolam silenciosamente em rostos com expressão de dor. O policial de plantão anota com ar de enfado os casos que terão de ser levado ao conhecimento das autoridades, para registro, que darão início a inquéritos nem sempre concluídos. Mais uma sirene se aproxima espalhando sua dor no ar parado da madrugada que parece não ter fim...
-Doutor! Mais um caso na emergência...
-Estou indo! Do que se trata?
-Tiro. A PM que trouxe...
-Qual a região atingida?
-Tórax.
-Chama o Cláudio depressa...
-Ele está operando na sala dois.
-Por favor, se afastem...
-Não podemos sair daqui doutor, o bicho é perigoso.
-Assim não dá para trabalhar... Vocês têm de esperar lá fora enquanto examino o     paciente. Isso aqui tá feio. Qual o calibre da arma?      
-Deve ter sido de pistola. Mas cuidado doutor, já disse que ele é perigoso.
-Enfermeira! Cadê o Cláudio?
-Ainda operando. Tá chegando uma ambulância com um atropelado.
-Chama o Rodolfo!
-O Doutor Rodolfo está operando na sala um.
-Mas Deus do Céu! Eu preciso de um trauma-ortopedista e de um cirurgião vascular aqui. Esse homem está mal! Não dá para fazer tudo sozinho!
-Esquenta não Doutor, se morrer, morreu. Isso não vale nada mesmo...
-Por favor, Sargento! Espere lá fora! Esse homem não tem condições de se movimentar. O senhor acha que ele vai fugir?
-Nunca se sabe. Bandido tem sete vidas.
-Mais sangue enfermeira! Não consigo estancar a hemorragia.
-A pressão arterial está caindo depressa...
-Doutor. O paciente que está de repouso na sala três já pode ir embora?
-Que paciente, minha filha!?
-O do coração...
-Meça novamente a pressão. Se estiver normal libere.
-E a criança que caiu da escada?
-Preciso ver o Raio-X.
-Cláudio! Ainda bem, assuma aqui. Vou examinar o que está chegando...
-Dê espaço para o Doutor...
-O quê foi isso?
-Atropelado por um ônibus. Parece que a perna direita tá mal...
-Deixa eu examinar. Cirurgia. Rápido... Sala dois.
-André! Esse não resistiu!
-Aí Sargento! Agora ele só vai para o necrotério. O senhor já pode liberar o es    paço.  
-Doutor André; essa criança engoliu uma moeda.
-Peça para o Cláudio fazer uma endoscopia. Cadê a Doutora Juliana?
-Na enfermaria...
-Doutor André, telefone.
-Agora não posso atender! Minha senhora, o que aconteceu com ele?
-Não sei... Acordou hoje cedo sentindo muita dor de cabeça e com febre. Agora está todo mole.
-Qual a idade dele?
-Quatro anos e dois meses.
-Não se preocupe... A doutora Juliana vai examiná-lo já, já.
-André, preciso que você veja esta ultra.
-O que foi que aconteceu?
-Ela diz que caiu da escada... Mas acho que é mentira. Parece que levou uma surra do marido. Há hematomas na região lombar, nos braços, nas pernas e equimoses no rosto e no pescoço.
-De quantos meses é gravidez?
-Cinco ou seis.
-Quando aconteceu o “acidente”?
-Ontem.
-É melhor chamar a Líliam...
-Hoje ela não veio...
-Mas que diabos! Eu tenho de resolver tudo sozinho? Interne até que apareça um obstetra.
-Não tem vaga...
-Fica difícil!
-Mando embora?
-De jeito nenhum! Verifique a anaminésia de todos os pacientes internados, e veja quem pode receber alta para poder abrir uma vaga, certo?
-Ok!
-Doutor André, estão lhe chamando no CTI.
-Negativo! Meu plantão terminou há mais de duas horas... Estou exausto! Chame o Cláudio, é a vez dele assumir o plantão. Até segunda...
-Doutor Cláudio! Doutor Cláudio! Chamado no CTI!
-Cadê o André?
-Já foi embora.
-Mande este para o raio-x...
-Não dá... O aparelho acaba de pifar...
-Assim não dá para trabalhar! Enfermeira arranje uma ambulância para transferir o paciente!
-A única disponível está na rua...
-Isto aqui é uma bagunça!
-Chegando dois baleados!
-Mande para a sala Um.
-O Doutor Rodolfo continua operando na sala Um...
Salas, pacientes, médicos, sirenes, luzes, dores, lágrimas, correrias, macas, cadeiras de rodas, gemidos no início de mais uma manhã que recomeça com baleados, atropelados, estropiados, desesperançados...

-Doutor Cláudio! Doutor Cláudio...